sábado, janeiro 20, 2007

"...não me perguntem o que é o bem e o que é o mal,
sabíamo-lo de cada vez que tivemos de agir no tempo em
que a cegueira era uma excepção, o certo e o errado são
apenas modos diferentes de entender a nossa relação
com os outros, não a que temos com nós próprios, nessa
não há que fiar, perdoem-me a prelecção moralística,
é que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter
olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou
simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês
sentem-no, eu sinto-o e vejo-o, e agora ponto final na
dissertação, vamos comer. Ninguém fez perguntas, o
médico só disse, Se eu voltar a ter olhos, olharei
verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse
a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o velho da venda
preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que,
surpreendentemente, se tivermos em conta que se
trata de pessoa que não passou por estudos adiantados,
a rapariga dos óculos escuros disse, Dentro de nós há uma
coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

José Saramago - Ensaio sobre a cegueira

1 Comentários:

Às 9:47 PM , Anonymous Anônimo disse...

Saramago... me incomoda a leitura de saramago sabia... acho que a levianidade da profundidade que ele passa... Saramago dá ao leitor um pensamento mastigado, instintivo... ele não cria clichês, ele é o próprio clichê... e embora requeira muito talento para dizer o que já está dito da maneira como ele faz... não vejo nele a importância linguística que lhe dão... talvez seja apenas eu, do alto da minha ignorância quem não saiba entender a futilidade de saramago... ou quem saiba seja a minha própria futilidade quem não permita ver a ignorância dele...

 

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